{"id":789,"date":"2017-05-01T11:05:00","date_gmt":"2017-05-01T14:05:00","guid":{"rendered":"https:\/\/sinditestrs.org.br\/site\/index.php\/2017\/05\/01\/primeiro-de-maio\/"},"modified":"2017-05-01T11:05:00","modified_gmt":"2017-05-01T14:05:00","slug":"primeiro-de-maio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sinditestrs.org.br\/site\/primeiro-de-maio\/","title":{"rendered":"PRIMEIRO DE MAIO"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"font-size: 11pt; line-height: 115%; font-family: Arial, sans-serif; background-image: initial; background-position: initial; background-size: initial; background-repeat: initial; background-attachment: initial; background-origin: initial; background-clip: initial;\"><span style=\"color:#ff0000;\">PARA OS QUE ACREDITAM NO QUE FAZEM<\/span> sugerimos a leitura deste texto! Mas s&oacute; para os que realmente acreditam, pois o texto &eacute; um pouco longo.<\/span><br \/>\n&nbsp;<br \/>\n&quot;<strong><span style=\"color:#ff0000;\">PRIMEIRO DE MAIO<\/span><\/strong>&quot; POR M&Aacute;RIO DE ANDRADE<\/p>\n<p>Os outros carregadores mais idosos meio que tinham ca&ccedil;oado do bobo, viesse trabalhar que era melhor, trabalho deles n&atilde;o tinha feriado. Mas o 35 retrucava com altivez que n&atilde;o carregava mala de ningu&eacute;m, havia de celebrar o dia deles. E agora tinha o grande dia pela frente.<br \/>\nDia dele&hellip; Primeiro quis tomar um banho pra ficar bem digno de existir. A &aacute;gua estava gelada, ridente, celebrando, e abrira um sol enorme e frio l&aacute; fora. Depois fez a barba. Barba era aquela penuginha meio loura, mas foi assim mesmo buscar a navalha dos s&aacute;bados, herdada do pai, e se barbeou. Foi se barbeando. Nu s&oacute; da cintura pra cima por causa da mam&atilde;e por ali, de vez em quando a dist&acirc;ncia mais aberta do espelhinho refletia os m&uacute;sculos violentos dele, desenvolvidos desarmoniosamente nos bra&ccedil;os, na peitaria, no cangote, pelo esfor&ccedil;o quotidiano de carregar peso. O 35 tinha um ar glorioso e est&uacute;pido. Por&eacute;m ele se agradava daqueles m&uacute;sculos intempestivos, fazendo a barba.<br \/>\nIa devagar porque estava matutando. Era a esperan&ccedil;a dum turumbamba macota, em que ele desse uns socos formid&aacute;veis nas ru&ccedil;as dos pol&iacute;cias. N&atilde;o teria raiva especial dos pol&iacute;cias, era apenas a resson&acirc;ncia vaga daquele dia. Com seus vinte anos f&aacute;ceis, o 35 sabia, mais da leitura dos jornais que de experi&ecirc;ncia, que o proletariado era uma classe oprimida. E os jornais tinham anunciado que se esperava grandes &ldquo;motins&rdquo; do Primeiro de Maio, em Paris, em Cuba, no Chile, em Madri.<br \/>\nO 35 apressou a navalha de puro amor. Era em Madri, no Chile que ele n&atilde;o tinha bem lembran&ccedil;a se ficava na Am&eacute;rica mesmo, era a gente dele&hellip; Uma piedade, um beijo lhe sa&iacute;a do corpo todo, feito prote&ccedil;&atilde;o sadia de macho, ia parar em terras n&atilde;o sabidas, mas era a gente dele, defender, combater, vencer&hellip; Comunismo? &hellip; Sim, talvez fosse isso. Mas o 35 n&atilde;o sabia bem direito, ficava atordoado com as not&iacute;cias, os jornais falavam tanta coisa, faziam tamanha mistura de R&uacute;ssia, s&oacute; sublime ou s&oacute; horrenda, e o 35 infantil estava por demais machucado pela experi&ecirc;ncia pra n&atilde;o desconfiar, o 35 desconfiava. Preferia o turumbamba porque n&atilde;o tinha medo de ningu&eacute;m, nem do Carnera, ah, um soco bem nas ru&ccedil;as dum pol&iacute;cia&hellip; A navalha apressou o passo outra vez. Mas de repente o 35 n&atilde;o imaginou mais em nada por causa daquele bigodinho de cinema que era a melhor preciosidade de todo o seu ser. Lembrou aquela mo&ccedil;a do apartamento, &eacute; verdade, nunca mais tinha passado l&aacute; pra ver se ela queria outra vez, safada! Riu.<br \/>\nAfinal o 35 saiu, estava lindo. Com a roupa preta de luxo, um n&oacute; errado na gravata verde com listinhas brancas e aqueles admir&aacute;veis sapatos de pelica amarela que n&atilde;o pudera sem comprar. O verde da gravata, o amarelo dos sapatos, bandeira brasileira, tempos de grupo escolar&hellip; E o 35 comoveu num hausto forte, querendo bem o seu imenso Brasil, imenso colosso gigante, foi andando depressa, assobiando. Mas parou de sopet&atilde;o e se orientou assustado. O caminho n&atilde;o era aquele, aquele era o caminho do trabalho.<br \/>\nUma indecis&atilde;o indiscreta o tornou consciente de novo que era o Primeiro de Maio, ele estava celebrando e n&atilde;o tinha o que fazer. Bom, primeiro decidiu ir na cidade pra assuntar alguma coisa. Mas podia seguir por aquela dire&ccedil;&atilde;o mesmo, era uma volta, mas assim passava na Esta&ccedil;&atilde;o da Luz dar um bom-dia festivo aos companheiros trabalhadores. Chegou l&aacute;, gesticulou o bom-dia festivo, mas n&atilde;o gostou porque os outros riram dele, bestas. S&oacute; que em seguida n&atilde;o encontrou nada na cidade, tudo fechado por causa do grande dia Primeiro de Maio. Pouca gente na rua. Deviam de estar almo&ccedil;ando j&aacute;, pra chegar cedo no maravilhoso jogo de futebol escolhido pra celebrar o grande dia. Tinha, mas era muito pol&iacute;cia, pol&iacute;cia em qualquer esquina, em qualquer porta cerrada de bar e de caf&eacute;, nas joalherias, quem pensava em roubar! nos bancos, nas casas de loteria. O 35 teve raiva dos pol&iacute;cias outra vez.<\/p>\n<p>E como n&atilde;o encontrasse mesmo um conhecido, comprou o jornal pra saber. Lembrou de entrar num caf&eacute;, tomar por certo uma m&eacute;dia, lendo. Mas a maioria dos caf&eacute;s estavam de porta cerrada e o 35 mesmo achou que era prefer&iacute;vel economizar dinheiro por enquanto, porque ningu&eacute;m n&atilde;o sabia o que estava pra suceder. O mais pr&aacute;tico era um banco de jardim, com aquele sol maravilhoso. Nuvens? umas nuvenzinhas brancas, ondulando no ar feliz. Insensivelmente o 35 foi se encaminhando de novo para os lados do Jardim da Luz. Eram os lados que ele conhecia, os lados em que trabalhava e se entendia mais. De repente lembrou que ali mesmo na cidade tinha banco mais perto, nos jardins do Anhangaba&uacute;. Mas o Jardim da Luz ele entendia mais. Imaginou que a prefer&ecirc;ncia vinha do Jardim da Luz ser mais bonito, estava celebrando. E continuou no passo em f&eacute;rias.<br \/>\nAo atravessar a esta&ccedil;&atilde;o achou de novo a companheirada trabalhando. Aquilo deu um mal-estar fundo nele, esp&eacute;cie n&atilde;o sabia bem, de arrependimento, talvez irrita&ccedil;&atilde;o dos companheiros, n&atilde;o sabia. Nem quereria nunca decidir o que estava sentindo j&aacute;&hellip; Mas disfar&ccedil;ou bem, passando sem parar, se dando por afobado, virando pra tr&aacute;s com o bra&ccedil;o amea&ccedil;ador, &ldquo;Voc&ecirc;s v&atilde;o ver!&hellip;&rdquo; Mas um riso aqui, outro riso acol&aacute;, uma frase longe, os carregadores companheiros, era t&atilde;o amigo deles, estavam ca&ccedil;oando. O 35 se sentiu bobo, imposs&iacute;vel recusar, envilecido. Odiou os camaradas. Andou mais depressa, entrou no jardim em frente, o primeiro banco era a salva&ccedil;&atilde;o, sentou-se. Mas dali algum companheiro podia divisar ele e ca&ccedil;oar mais, teve raiva. Foi l&aacute; no fundo do jardim campear banco escondido. J&aacute; passavam negras dispon&iacute;veis por ali. E o 35 teve uma id&eacute;ia muito n&atilde;o pensada, recusada, de que ele tamb&eacute;m estava uma esp&eacute;cie de negra dispon&iacute;vel, assim. Mas n&atilde;o estava n&atilde;o, estava celebrando, n&atilde;o podia nunca acreditar que estivesse dispon&iacute;vel e n&atilde;o acreditou. Abriu o jornal. Havia logo um artigo muito bonito, bem pequeno, falando na nobreza do trabalho, nos oper&aacute;rios que eram tamb&eacute;m os &ldquo;oper&aacute;rios da na&ccedil;&atilde;o&rdquo;, &eacute; isso mesmo. O 35 se orgulhou todo comovido. Se pedissem pra ele matar, ele matava roubava, trabalhava gr&aacute;tis, tomado dum sublime desejo de fraternidade, todos os seres juntos, todos bons&hellip; Depois vinham as not&iacute;cias. Se esperavam &ldquo;grandes motins&rdquo; em Paris, deu uma raiva tal no 35. E ele ficou todo fremente, quase sem respirar, desejando &ldquo;motins&rdquo; (devia ser turumbamba) na sua desmesurada for&ccedil;a f&iacute;sica, ah, as ru&ccedil;as de algum&hellip; pol&iacute;cia? pol&iacute;cia. Pelo menos os safados dos pol&iacute;cias.<br \/>\nPois estava escrito em cima do jornal: em S&atilde;o Paulo a Pol&iacute;cia proibira com&iacute;cios na rua e passeatas, embora se falasse vagamente em motins de tarde no Largo da S&eacute;. Mas a pol&iacute;cia j&aacute; tomara todas as provid&ecirc;ncias, at&eacute; metralhadoras, estavam em cima do jornal, nos arranha-c&eacute;us, escondidas, o 35 sentiu um frio. O sol brilhante queimava, banco na sombra? Mas n&atilde;o tinha, que a Prefeitura, pra evitar safadez dos namorados, punha os bancos s&oacute; bem no sol. E ainda por cima era aquela imensidade de guardas e pol&iacute;cias vigiando que nem bem a gente punha a m&atilde;o no pescocinho dela, trilo. Mas a Pol&iacute;cia permitiria a grande reuni&atilde;o prolet&aacute;ria, com discurso do ilustre Secret&aacute;rio do Trabalho, no magn&iacute;fico p&aacute;tio interno do Pal&aacute;cio das Ind&uacute;strias, lugar fechado! A sensa&ccedil;&atilde;o foi claramente p&eacute;ssima. N&atilde;o era medo, mas por que que a gente havia de ficar encurralado assim! &eacute;! E pra eles depois poderem cair em cima da gente, (palavr&atilde;o)! N&atilde;o vou! n&atilde;o sou besta! Quer dizer: vou sim! desaforo! (palavr&atilde;o), socos, uma vis&atilde;o tumultuaria, rolando no ch&atilde;o, se machucava mas n&atilde;o fazia mal, sa&iacute;am todos enfurecidos do Pal&aacute;cio das Ind&uacute;strias, pegavam fogo no Pal&aacute;cio das Ind&uacute;strias, n&atilde;o! a ind&uacute;stria &eacute; a gente, &ldquo;oper&aacute;rios da na&ccedil;&atilde;o&rdquo; pegavam fogo na igreja de S&atilde;o Bento mais pr&oacute;xima que era t&atilde;o linda por &ldquo;drento&rdquo;, mas pra que pegar fogo em nada! (O 35 chegara at&eacute; a primeira comunh&atilde;o em menino&hellip;), &eacute; melhor a gente n&atilde;o pegar fogo em nada; vamos no Pal&aacute;cio do Governo, exigimos tudo do Governo, vamos com o general da Regi&atilde;o Militar, deve ser ga&uacute;cho, ga&uacute;cho s&oacute; d&aacute; &eacute; farda, pegamos fogo no pal&aacute;cio dele. Pronto. Isso o 35 consentiu, n&atilde;o porque o tingisse o menor separatismo (e o aprendido no grupo escolar?) mas nutria sempre uma esp&eacute;cie de despeito por S&atilde;o Paulo ter perdido na revolu&ccedil;&atilde;o de 32. Sensa&ccedil;&atilde;o ali&aacute;s quase de esporte, quest&atilde;o de Palestra-Cor&iacute;ntians, cabe&ccedil;a inchada, porque n&atilde;o v&ecirc; que ele havia de se matar por causa de uma besta de revolu&ccedil;&atilde;o diz-que democr&aacute;tica, v&atilde;o &ldquo;eles&rdquo;!&hellip; Se fosse o Primeiro de Maio, p&ecirc;los menos&hellip; O 35 percebeu que se regava todo por &ldquo;drento&rdquo; dum esp&iacute;rito generoso de sacrif&iacute;cio. Estava outra vez enormemente piedoso, morreria sorrindo, morrer&hellip; Teve uma n&iacute;tida, envergonhada sensa&ccedil;&atilde;o de pena. Morrer assim t&atilde;o lindo, t&atilde;o mo&ccedil;o. A mo&ccedil;a do apartamento&hellip;<br \/>\nSalvou-se lendo com pressa, oh! os deputados trabalhistas chegavam agora &agrave;s nove horas, e o jornal convidavam (sic) o povo pra ir na Esta&ccedil;&atilde;o do Norte (a esta&ccedil;&atilde;o rival, desapontou) pra receber os grandes homens. Se levantou mandado, procurou o rel&oacute;gio da torre da Esta&ccedil;&atilde;o da Luz, ora! n&atilde;o dava mais tempo! quem sabe se d&aacute;!<br \/>\nFoi correndo, estava celebrando, raspou distra&iacute;do o sapato lindo na beira de tijolo do canteiro (palavr&atilde;o), parou botando um pouco de guspe no rasp&atilde;o, depois engraxo, tomou o bonde pra cidade, mas dando uma voltinha pra n&atilde;o passar pelos companheiros da Esta&ccedil;&atilde;o. Que alvoro&ccedil;o por dentro, ainda havia de aplaudir os homens. Tomou o outro bonde pro Br&aacute;s. N&atilde;o dava mais tempo, ele percebia, eram quase nove horas quando chegou na cidade, ao passar pelo Pal&aacute;cio das Ind&uacute;strias, o rel&oacute;gio da torre indicava nove e dez, mas o trem da Central sempre atrasa, quem sabe? bom: &agrave;s quatorze horas venho aqui, n&atilde;o perco, mas devo ir, s&atilde;o nossos deputados no tal de congresso, devo ir. Os jornais n&atilde;o falavam nada dos trabalhistas, s&oacute; falavam dum que insultava muito a religi&atilde;o e exigia div&oacute;rcio, o div&oacute;rcio o 35 achava necess&aacute;rio (a mo&ccedil;a do apartamento&hellip;), mas os jornais contavam que toda a gente achava gra&ccedil;a no homenzinho &ldquo;V&oacute;s, burgueses&rdquo;, e toda a gente, os jornais contavam, acabaram se rindo do tal do deputado. E o 35 acabou n&atilde;o achando mais gra&ccedil;a nele. Teve at&eacute; raiva do tal, um soco &eacute; que merecia. E agora estava torcendo pra n&atilde;o chegar com tempo na Esta&ccedil;&atilde;o.<br \/>\nChegou tarde. Quase nada tarde, eram apenas nove e quinze. Pois n&atilde;o havia mais nada, n&atilde;o tinha aquela multid&atilde;o que ele esperava, parecia tudo normal. Conhecia alguns carregadores dali tamb&eacute;m e foi perguntar. N&atilde;o, n&atilde;o tinham reparado nada, decerto foi aquele grupinho que parou na porta da Esta&ccedil;&atilde;o, tirando fotografia A&iacute; outro carregador conferiu que eram os deputados sim, porque tinham tomado aqueles dois sublimes autom&oacute;veis oficiais. Nada feito.<br \/>\nAo chegar na esquina o 35 parou pra tomar o bonde, mas v&aacute;rios bondes passaram. Era apenas um mo&ccedil;o bem-vestidinho, decerto &agrave; procura de emprego por a&iacute;, olhando a rua. Mas de repente sentiu fome e se reachou. Havia por dentro, por &ldquo;drento&rdquo; dele um desabalar neblinoso de ilus&otilde;es, de entusiasmo e uns raios fortes de remorso. Estava t&atilde;o desagrad&aacute;vel, estava quase infeliz&hellip; Mas como perceber tudo isso se ele precisava n&atilde;o perceber!&hellip; O 35 percebeu que era fome.<br \/>\nDecidiu ir a-p&eacute; pra casa, foi a-p&eacute;, longe, fazendo um esfor&ccedil;o penoso para achar interesse no dia. Estava era com fome, comendo aquilo passava. Tudo deserto, era por ser feriado, Primeiro de Maio. Os companheiros estavam trabalhando, de vez em quando um carrego, o mais eram conversas divertidas, mulheres de passagem, comentadas, piadas grossas com as mulatas do jardim, mas s&oacute; as bem limpas mais caras, que ele ganhava bem, todos simpatizavam logo com ele, ora por que que hoje me deu de lembrar aquela mo&ccedil;a do apartamento!&hellip; Tamb&eacute;m: mo&ccedil;a morando sozinha &eacute; no que d&aacute;. Em todo caso, pra acabar o dia era uma id&eacute;ia ir l&aacute;, com que pretexto?&hellip; Devia ter ido em Santos, no piquenique da Mobiliadora, doze paus o convite, mas o Primeiro de Maio&hellip; Recusara, recusara repetindo o &ldquo;n&atilde;o&rdquo; de repente com raiva, muito interrogativo, se achando esquisito daquela raiva que lhe dera. Ent&atilde;o conseguiu imaginar que esse piquenique monstro, aquele jogo de futebol que apaixonava eles todos, assim n&atilde;o ficava ningu&eacute;m pra celebrar o Primeiro de Maio, sentiu-se muito triste, desamparado. E melhor tomo por esta rua. Isso o 35 percebeu claro, insofism&aacute;vel que n&atilde;o era melhor, ficava bem mais longe. Ara, que tem! Agora ele n&atilde;o podia se confessar mais que era pra n&atilde;o passar na Esta&ccedil;&atilde;o da Luz e os companheiros n&atilde;o rirem dele outra vez. E deu a volta, deu com o cora&ccedil;&atilde;o cerrado de ang&uacute;stia indiz&iacute;vel, com um vento enorme de todo o ser soprando ele pra junto dos companheiros, ficar l&aacute; na conversa, quem sabe? trabalhar&hellip; E quando a m&atilde;e lhe p&ocirc;s aquela espl&ecirc;ndida macarronada celebrante sobre a mesa, o 35 foi pra se queixar &ldquo;Estou sem fome, m&atilde;e&rdquo;. Mas a voz lhe morreu na garganta.<br \/>\nN&atilde;o eram bem treze horas e j&aacute; o 35 desembocava no parque Pedro II outra vez, &agrave; vista do Pal&aacute;cio das Ind&uacute;strias. Estava inquieto mas modorrento, que diabo de sol pesado que acaba com a gente, era por causa do sol. N&atilde;o podia mais se recusar o estado de infelicidade, a solid&atilde;o enorme, sentida com vigor. Por sinal que o parque j&aacute; se mexia bem agitado. Dezenas de oper&aacute;rios, se via, eram oper&aacute;rios endomingados, vagueavam, por ali, indecisos, ar de quem n&atilde;o quer. Ent&atilde;o nas proximidades do pal&aacute;cio, os grupos se apinhavam, conversando baixo, com melancolia de conspira&ccedil;&atilde;o. Pol&iacute;cias por todo lado.<br \/>\nO 35 topou com o 486, grilo quase amigo, que policiava na Esta&ccedil;&atilde;o da Luz. O 486 achara jeito de n&atilde;o trabalhar aquele dia porque se pensava anarquista, mas no fundo era covarde. Conversaram um pouco de entusiasmo semostradeiro, um pouco de primeiro de maio, um pouco de &ldquo;motim&rdquo;. O 486 era muito valent&atilde;o de boca, o 35 pensou. Pararam bem na frente do Pal&aacute;cio das Ind&uacute;strias que fagulhava de gente nas sacadas, se via que n&atilde;o eram oper&aacute;rios, decerto os deputados trabalhistas, havia at&eacute; mo&ccedil;as, se via que eram distintas, todos olhando para o lado do parque onde eles estavam.<br \/>\nFoi uma nova sensa&ccedil;&atilde;o t&atilde;o desagrad&aacute;vel que ele deu de andar quase fugindo, pol&iacute;cias, centenas de pol&iacute;cias, moderou o passo como quem passeia. Nas ruas que davam pro parque tinha cavalarias aos grupos, cinco, seis escondidos na esquina, querendo a discri&ccedil;&atilde;o de n&atilde;o ostentar for&ccedil;a e ostentando. Os grilos ainda n&atilde;o faziam mal, s&atilde;o uns (palavr&atilde;o)! O pal&aacute;cio dava id&eacute;ia duma fortaleza enfeitada, entrar l&aacute; dentro, eu!&hellip; O 486 ent&atilde;o, exaltad&iacute;ssimo, descrevia coisas piores, massacres horrendos de &ldquo;prolet&aacute;rios&rdquo; l&aacute; dentro, descrevia tudo com a visibilidade dos medrosos, o p&aacute;tio fechado, dez mil prolet&aacute;rios no p&aacute;tio e os pol&iacute;cias l&aacute; em cima nas janelas, fazendo pontaria na maciota.<br \/>\nMas foi s&oacute; quando aqueles tr&ecirc;s homens bem-vestidos, se via que n&atilde;o eram oper&aacute;rios, se dirigindo aos grupos vagueantes, falaram pra eles em voz alta: &ldquo;Podem entrar! n&atilde;o tenham vergonha! podem entrar!&rdquo; com voz de mandando assim na gente&hellip; O 35 sentiu medo franco. Entrar ele! Fez como os outros oper&aacute;rios: era imposs&iacute;vel assim soltos, desobedecer aos tr&ecirc;s homens bem-vestidos, com voz mandando, se via que n&atilde;o eram oper&aacute;rios. Foram todos obedecendo, se aproximando das escadarias, mas o maior n&uacute;mero longe da vista dos tr&ecirc;s homens, torcia caminho, iam se espalhar pelas outras alamedas do parque, mais longe.<br \/>\nEsses movimentos coletivos de recusa, acordaram a covardia do 35. N&atilde;o era medo, que ele se sentia fort&iacute;ssimo, era p&acirc;nico. Era um puxar un&acirc;nime, uma fraternidade, era car&iacute;cia dolorosa por todos aqueles companheiros fortes t&atilde;o fracos que estavam ali tamb&eacute;m pra&hellip; pra celebrar? pra&hellip; O 35 n&atilde;o sabia mais pra qu&ecirc;. Mas o pal&aacute;cio era grandioso por demais com as torres e as esculturas, mas aquela por&ccedil;&atilde;o de gente bem-vestida nas escadas enxergando ele (teve a intui&ccedil;&atilde;o violenta de que estava ridiculamente vestido), mas o enclausuramento na casa fechada, sem espa&ccedil;o de liberdade, sem ruas abertas pra avan&ccedil;ar, pra correr dos cavalarias, pra brigar&hellip; E os pol&iacute;cias na maciota, encarapitados nas janelas, dormindo na pontaria, teve &oacute;dio do 486, idiota medroso! De repente o 35 pensou que ele era mo&ccedil;o, precisava se sacrificar: se fizesse um modo bem-vis&iacute;vel de entrar sem medo no pal&aacute;cio, todos haviam de seguir o exemplo dele. Pensou, n&atilde;o fez. Estava t&atilde;o opresso, se desfibrara t&atilde;o rebaixado naquela mascarada de socialismo, naquela desorganiza&ccedil;&atilde;o tr&aacute;gica, o 35 ficou desolado duma vez. Tinha piedade, tinha amor, tinha fraternidade, e era s&oacute;. Era uma sar&ccedil;a ardente, mas era sentimento s&oacute;. Um sentimento profund&iacute;ssimo, queimando, maravilhoso, mas desamparado, mas desamparado. Nisto vieram uns cavalarias, falando garantidos:<br \/>\n&mdash; Aqui ningu&eacute;m n&atilde;o fica n&atilde;o! a festa &eacute; l&aacute; dentro, me&rsquo;rm&atilde;o! no parque ningu&eacute;m n&atilde;o p&aacute;ra n&atilde;o!<br \/>\nCabe&ccedil;as-chatas&hellip; E os grupos deram de andar outra vez, de c&aacute; para l&aacute;, riscando no parque vasto, com vontade, com medo, falando baixinho, mastigando incerteza. Deu um &oacute;dio tal no 35, um desespero tamanho, passava um bonde, correu, tomou o bonde sem se despedir do 486, com &oacute;dio do 486, com &oacute;dio do primeiro de maio, quase com &oacute;dio de viver.<br \/>\nO bonde subia para o centro mais uma vez. Os rel&oacute;gios marcavam quatorze horas, decerto a celebra&ccedil;&atilde;o estava principiando, quis voltar, dava muito tempo, tr&ecirc;s minutos pra descer a ladeira, teve fome. N&atilde;o &eacute; que tivesse fome, por&eacute;m o 35 carecia de arranjar uma ocupa&ccedil;&atilde;o sen&atilde;o arrebentava. E ficou parado assim, mais de uma hora, mais de duas horas, no Largo da S&eacute;, diz-que olhando a multid&atilde;o.<br \/>\nAcabara por completo a ang&uacute;stia. N&atilde;o pensava, n&atilde;o sentia mais nada. Uma vagueza cruciante, nem bem-sentida, nem bem-vivida, inexist&ecirc;ncia fraudulenta, c&iacute;nica, enquanto o primeiro de maio passava. A mulher de encarnado foi apenas o que lhe trouxe de novo &agrave; lembran&ccedil;a a mo&ccedil;a do apartamento, mas nunca que ele fosse at&eacute; l&aacute;, n&atilde;o havia pretexto, na certa que ela n&atilde;o estava sozinha. Nada. Havia uma paz, que paz sem cor por dentro&hellip;<br \/>\nPelas dezessete horas era fome, agora sim, era fome. Reconheceu que n&atilde;o almo&ccedil;ara quase nada, era fome, e principiou enxergando o mundo outra vez. A multid&atilde;o j&aacute; se esvaziava, desapontada, porque n&atilde;o houvera nem uma briguinha, nem uma correria no Largo da S&eacute;, como se esperava. Tinha claros bem largos, onde os grupos dos pol&iacute;cias resplandeciam mais. As outras ruas do centro, essas ent&atilde;o quase totalmente desertas. Os caf&eacute;s, j&aacute; sabe, tinham fechado, com o pretexto magn&acirc;nimo de dar feriado aos seus &ldquo;prolet&aacute;rios&rdquo; tamb&eacute;m.<br \/>\nE o 35 inerme, passivo, t&atilde;o crian&ccedil;a, t&atilde;o j&aacute; experiente da vida, n&atilde;o cultivou vaidade mais: foi se dirigindo num passo arrastado para a Esta&ccedil;&atilde;o da Luz, pra os companheiros dele, esse era o dom&iacute;nio dele. L&aacute; no bairro os caf&eacute;s continuavam abertos, entrou num, tomou duas m&eacute;dias, comeu bastante p&atilde;o com manteiga, exigiu mais manteiga, tinha um fraco por manteiga, n&atilde;o se amolava de pagar o excedente, gastou dinheiro, queria gastar dinheiro, queria perceber que estava gastando dinheiro, comprou uma ma&ccedil;&atilde; bem rubra, oitocent&atilde;o! foi comendo com prazer at&eacute; os companheiros. Eles se ajuntaram, agora s&eacute;rios, curiosos, meio inquietos, perguntando pra ele. Teve um instinto voluptuoso de mentir, contar como fora a celebra&ccedil;&atilde;o, se enfeitar, mas fez um gesto s&oacute;, (palavr&atilde;o), cuspindo um muxoxo de desd&eacute;m pra tudo.<br \/>\nChegava um trem e os carregadores se dispersaram, agora rivais, colhendo carregos em porfia. O 35 encostou na parede, indiferente, catando com dentadinhas cuidadosas os restos da ma&ccedil;&atilde;, junto aos caro&ccedil;os. Sentia-se c&ocirc;modo, tudo era conhecido velho, os choferes, os viajantes. Surgiu um farrancho que chamou o 22. Foram subir no autom&oacute;vel mas afinal, depois de muita gritaria, acabaram reconhecendo que tudo n&atilde;o cabia no carro. Era a m&atilde;e, eram as duas velhas, cinco meninos repartidos p&ecirc;los colos e o marido. Tudo falando: &ldquo;Assim n&atilde;o serve n&atilde;o! As malas n&atilde;o v&atilde;o n&atilde;o!&rdquo; A&iacute; o chofer garantiu en&eacute;rgico que as malas n&atilde;o levava, mas as maletas elas &ldquo;n&atilde;o largavam n&atilde;o&rdquo;, s&oacute; as malas grandes que eram quatro. Deixaram elas com o 22, gritaram a dire&ccedil;&atilde;o e partiram na gritaria. Mais cabe&ccedil;a chata, o 35 imaginou com muita aceita&ccedil;&atilde;o.<br \/>\nO 22 era velhote. Ficou na beira da cal&ccedil;ada com aquelas quatro malas pesad&iacute;ssimas, preparou a correia, mas co&ccedil;ou a cabe&ccedil;a.<br \/>\n&mdash; Deixe que te ajudo, chegou o 35.<br \/>\nE foi logo escolhendo as duas malas maiores, que ergueu numa s&oacute; m&atilde;o, num esfor&ccedil;o satisfeito de m&uacute;sculos. O 22 olhou pra ele, feroz, imaginando que 35 propunha rachar o galho. Mas o 35 deu um soco s&oacute; de p&acirc;ndega no velhote, que estremeceu socado e cambaleou tr&ecirc;s passos. Ca&iacute;ram na risada os dois. Foram andando.<br \/>\n&nbsp;<br \/>\nFonte, atrav&eacute;s da p&aacute;gina na internet, em 01\/05\/2017: <a href=\"https:\/\/www.suplementopernambuco.com.br\/edi%C3%A7%C3%B5es-anteriores\/92-ficcao\/1856-primeiro-de-maio-,-por-mario-de-andrade.html\">https:\/\/www.suplementopernambuco.com.br\/edi%C3%A7%C3%B5es-anteriores\/92-ficcao\/1856-primeiro-de-maio-,-por-mario-de-andrade.html<\/a><br \/>\n&nbsp;<br \/>\nFoto: (imagem-Trabalhadores-Seba<wbr \/>sti&atilde;o Salgado).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>https:\/\/sinditestrs.org.br\/admin\/noticias\/imgs\/sinditestrs_news-3e6c605f01ea5072758d1ce2227d6c7a.jpg<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sinditestrs.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/789"}],"collection":[{"href":"https:\/\/sinditestrs.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sinditestrs.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sinditestrs.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sinditestrs.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=789"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/sinditestrs.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/789\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sinditestrs.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=789"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sinditestrs.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=789"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sinditestrs.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=789"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}